“O Agente Secreto”, a reconsolidação da memória do Brasil e do cinema

“O Agente Secreto”, a reconsolidação da memória do Brasil e do cinema
(Reprodução)

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Em cinema, e talvez a memória opere assim em alguma medida, nada vale apenas porque é “fiel aos fatos”. Nem perde o valor por recontar algo que já foi contado muitas vezes. Não foi por falta de versões que a história do Brasil dos anos de chumbo se esgotou. O que importa, como em toda arte, não é a matéria-prima, mas o modo de tocá-la. Não o episódio, mas o olhar lançado.

Essas coisas me ocorreram assistindo “O Agente Secreto”, de Kléber Mendonça Filho, onde ele exerce algo parecido com a arqueologia, mas uma arqueologia afetiva, dessas que remexem gavetas para descobrir que a lembrança nunca é uma fita VHS esperando para ser rebobinada. Lembrar, ao contrário, é sempre atualizar. A cada vez que puxamos uma memória, ela volta ligeiramente diferente: muda o fato, muda o afeto. A reconsolidação (para usar o jargão médico) reinventa tudo.

É por isso que, ao revisitar as ruínas da cinefilia dos anos 1970 e a poeira dos tempos de Geisel, o filme combina, sem cerimônia, pedaços de cultura pop, ecos de blockbusters, gêneros inteiros de cinema, histórias de calçada, fantasmas de rádio AM e até a arquitetura saudosa da cidade. Esse Recife que se reergue ali não é o do mapa: é o da heterotopia cinematográfica, um lugar de suspensão das regras, desses em que o real serve mais como metáfora do que para endereço postal.

A cinefilia, aqui, não serve como saudade. Serve como rearranjo. Kléber faz com as imagens o que fazemos quando achamos uma foto antiga: não voltamos ao momento; reinterpretamos o que sobrou dele. O espectador vira arqueólogo, como os jornalistas do filme, buscando pulsos de vida nos vestígios do país que não quis se lembrar de si mesmo.

Cada plano acaba sendo uma pergunta: o que a imagem mostra? O que a história escondeu? E, desse Brasil cuidadosamente esquecido, o que ainda podemos alcançar?

Final feliz, claro, não há. Os perseguidos não voltam, e o filme se presta a esse consolo. Mas, quando as fitas trocam de mãos, aparece outra espécie de esperança: a da reconstrução simbólica. A arte, afinal, às vezes consegue entregar no plano simbólico o que a realidade covardemente não fez.

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