Por que “O Drama” é a prova de que não conhecemos ninguém

Foto: A24/Divulgação.
Foto: A24/Divulgação.

Robert Pattinson e Zendaya mergulham em uma sátira cruel sobre verdades, mentiras e o colapso do amor moderno

Poderia ter sido um sábado sem cinema, mas a curiosidade me venceu. De repente, me vi diante de uma dúvida cruel: analisar os detalhes que deixei passar em Devoradores de Estrelas , ou mergulhar no desconhecido que O Drama me reservava. Como não tinha lido nada sobre a obra, optei pelo risco da segunda opção. E que escolha gratificante. O filme é um soco seco no estômago, disfarçado de um elegante romance da A24.

O diretor norueguês Kristoffer Borgli (o mesmo de Sick of Myself e Dream Scenario) continua sua obsessão por personagens que implodem socialmente. Se em seus trabalhos anteriores ele explorava a vaidade e o sonho, em O Drama ele disseca o matrimônio e os segredos que guardamos para sermos amados. A direção de fotografia de Arseni Khachaturan é cirúrgica; ela troca o brilho das comédias românticas tradicionais por uma textura de 35mm que parece captar o suor frio e o desconforto que emanam da tela.

No centro desse tornado estão dois atores no auge de sua coragem artística. Robert Pattinson, meticuloso em sua construção de mais um macho inseguro, prova que ninguém habita a estranheza tão bem quanto ele. O ator fura a tela com a sua vulnerabilidade quase patética. Já Zendaya é implacável no desafio que faz à própria imagem de “queridinha da América”; ela entrega uma força bruta e uma complexidade que nos faz questionar nossa própria moralidade. Juntos, eles são o coração quebrado do filme.

A força do roteiro também se espalha pelas margens: o elenco secundário, com destaque para a afiadíssima Alana Haim, estica com folga o alcance cômico do texto, trazendo o alívio ácido que impede o filme de se tornar apenas um suspense psicológico pesado.

O Drama não é um filme fácil, nem pretende ser. Ele é uma provocação de Borgli que nos obriga a olhar para o lado e perguntar: “O que eu não sei sobre você?”. Saí da sessão com a certeza de que, às vezes, o maior espetáculo não está apenas na imensidão do espaço, mas também no pequeno e devastador abismo que existe entre duas pessoas que se amam.

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