O Brilho e as Cicatrizes de “Andar na Pedra”

Foto: Adriana Pittigliani/Reprodução.
Foto: Adriana Pittigliani/Reprodução.

Documentário do Globoplay relata a ascensão meteórica e o racha ideológico do Raimundos, provando que nem todo sucesso é fácil de carregar.

O ano era 1994. Na época, eu, com quinze anos de idade, acompanhava com muita empolgação nas rádios Transamérica e Jovem Pan uma música que se apresentava de forma diferente de tudo o que já tinha ouvido antes. “Selim” já era um sucesso antes mesmo de ser gravada. A curiosidade para descobrir quem eram os autores daquela artimanha me levou até a banda Raimundos. No ano seguinte, empolgados com um ritmo alucinante que reescrevia a história do rock brasileiro, junto a um grupo de amigos, montamos uma banda na qual eu era o vocalista. Nossa referência não podia ser outra: quatro rapazes de Brasília que ecoavam seu som nos quatro cantos do Brasil. Green Day, Nirvana, The Cure e Rush eram nossas segundas opções. De lá para cá, o resto é história.

E é justamente essa história — que mistura o “heavy-sertanejo” irreverente com o punk visceral — que ganha uma lente de aumento necessária no documentário “Andar na Pedra – A História do Raimundos”, recém-chegado ao Globoplay.

O Som que Mudou o Brasil
Dirigida por Daniel Ferro, a série documental de cinco episódios não se esquiva dos temas espinhosos. O diretor soube aproveitar o “armistício” entre Rodolfo Abrantes e Digão para construir um relato honesto sobre como quatro amigos saíram do underground de Brasília para vender milhões de cópias com álbuns como Lavô Tá Novo e Só no Forévis.

O documentário brilha ao mostrar a revolução sonora que eles causaram. Como bem pontua Serginho Groisman em um dos depoimentos, os Raimundos foram a voz de uma juventude que ansiava pela liberdade democrática através da música despudorada e contundente.

A Queda e a Redenção
Para quem, como eu, viveu a “Raimundomania”, o momento mais denso da obra é a saída de Rodolfo em 2001. O filme trata a conversão religiosa do vocalista e os conflitos internos com uma maturidade impressionante, dando voz aos quatro integrantes da formação clássica. É emocionante ver imagens raras do saudoso Canisso (falecido em 2023), que servem como um lembrete do quanto a banda era uma unidade técnica e afetiva.

Embora o ritmo da série seja envolvente, há uma crueza nos depoimentos que humaniza os ídolos. Não estamos apenas vendo astros do rock; estamos vendo homens lidando com o luto da amizade e o peso da fama.

Veredito
Andar na Pedra é um registro essencial para entender por que o rock brasileiro dos anos 90 foi tão potente. Para quem teve banda, como eu, ou apenas gastou a fita K7 de tanto ouvir “Puteiro em João Pessoa”, o documentário é um reencontro. Ele prova que, embora a banda tenha seguido caminhos tortuosos, o legado sonoro permanece intacto.

Se você quer entender como o Brasil passou do “Selim” ao topo das paradas, esse play é obrigatório. É a história de uma banda que, literalmente, não teve medo de andar na pedra.

Redes Sociais
Falar de Raimundos é tocar na ferida aberta do rock brasileiro dos anos 90, e esse documentário do Globoplay parece ser a “sessão de terapia” que a banda (e nós, os fãs) precisávamos. O diretor Daniel Ferro foi cirúrgico ao reunir os quatro — Rodolfo, Digão, Canisso e Fred — para contar uma história onde, como eles mesmos dizem, “não há heróis nem vilões.

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