“Michael”: A vida nem sempre se parece com aqueles comerciais de margarina

Foto: Lionsgate/Divulgação.
Foto: Lionsgate/Divulgação.

O filme “Jackson” (2026) chega aos cinemas com uma promessa ambiciosa: retratar a vida e o legado do Rei do Pop como nunca antes foi feito. Mas o que o espectador encontra em Michael, dirigido por Antoine Fuqua (o mesmo de Dia de Treinamento [2001] e O Protetor [2014]), é justamente o oposto: uma versão higienizada, quase publicitária, da história de um dos artistas mais complexos da cultura pop.

E olha que a comparação com comercial de margarina não é forçada. Tudo é luminoso, tudo é bonito, tudo termina bem. Família unida, talento recompensado, vilão identificado. Falta só o pão na mesa — ah, espera, a trilha sonora impecável já está lá.

Joe Jackson: o vilão conveniente
Sabemos, por relatos contados aos sete cantos, que Joseph “Joe” Jackson explorava seus filhos com mão de ferro em busca de fama e dinheiro. O filme mostra isso, sim — mas de uma forma tão contida que, em certo momento, tive o pensamento de que era o próprio Michael o vilão da história, demitindo o pai e o contradizendo sobre os rumos da turnê. O roteiro transforma Joe num monstro bem-comportado: suficientemente cruel para justificar o drama, mas nunca complexo o suficiente para incomodar de verdade.

É uma escolha segura. E seguro é exatamente o problema central de Michael.

O que o cobre e o que evita
A narrativa acompanha Michael desde a infância em Gary, Indiana, passando pela era Jackson 5 na Motown, até a turnê Bad de 1988 — onde sobem os créditos ao som do clássico “Who’s bad?”, numa ironia que o próprio filme parece não perceber que está fazendo. Qualquer referência às acusações de abuso sexual que marcariam os anos seguintes? Ausente. Janet Jackson? Inexistente neste universo. O filme foi produzido com aprovação total do Espólio de Michael Jackson, e isso aparece em cada escolha narrativa.

Jaafar Jackson salva
Os pontos altos do filme se dividem entre o repertório musical impecável e a performance de Jaafar Jackson — sobrinho de Michael na vida real e protagonista da fase adulta. Ele acerta o visual, a voz, os movimentos. Há algo genuinamente desconcertante em vê-lo recriar a apresentação histórica de “Billie Jean” no especial dos 25 anos da Motown. Por momentos, você esquece que está assistindo a uma reconstituição.

Dito isso, pratico o exercício de reparar em detalhes que passam despercebidos naturalmente — e num desses momentos notei que a calça usada por Jaafar nessa cena estava curta o suficiente para expor parte de sua canela. Fui conferir na gravação original: isso não acontece. Pequeno detalhe, mas sintomático de um filme que capricha no espetáculo e tropeça nos detalhes.

O que o deixa a desejar
Os cortes também apresentam problemas em algumas situações — falta cuidado na seleção de cenas, e há pequenos problemas de continuidade que tiram o espectador do fluxo da narrativa. Para um filme que depende tanto da recriação de momentos icônicos, esses tropeços técnicos custam caro.

Michael é retratado aqui como uma figura exótica e a principal fonte de renda da família Jackson — o que é um fato histórico. Mas o filme não sabe o que fazer com essa informação além de usá-la como combustível para o conflito com o pai. Falta profundidade. Falta sombra. O homem por trás do artista, com suas contradições, suas inseguranças, sua estranheza genuína, aparece em flashes breves — e logo é substituído por mais um número musical bem executado.

Michael é um filme que você assiste com prazer e esquece com facilidade. A trilha sonora é imbatível, Jaafar Jackson é uma revelação, e há momentos em que o espetáculo justifica o ingresso. Mas para um artista que redefiniu os limites do que a música popular poderia ser, entregar um biopic tão bem-comportado é quase uma ofensa póstuma. O comercial de margarina está bem-feito. Só não espere encontrar a vida de verdade dentro dele.

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