Bastidores sujos e ilusão de campo: onde “Jogada de Risco” acerta e onde tropeça

Foto: Globoplay/Divulgação.
Foto: Globoplay/Divulgação.

Entre os bastidores afiados de poder e as falhas dentro de campo, a nova série do Globoplay revela a verdadeira face do futebol.

 

futebol brasileiro sempre foi um celeiro inesgotável de narrativas dramáticas, mas raramente a teledramaturgia nacional conseguiu penetrar com tanta profundidade nos bastidores das negociações, interesses de bastidores e esquemas obscuros quanto a nova aposta do Globoplay, Jogada de Risco. Criada e protagonizada por Cauã Reymond (que também assina a direção ao lado de Bruno Safadi), a produção tenta desconstruir o glamour das gramados para escancarar o engrenamento implacável da indústria do esporte.

Centrada em Maurício (Reymond), um ex-jogador frustrado que tenta se recalibrar na carreira como agente de atletas, a série nos coloca em um ecossistema amoral. Onde há contratos milionários, há também agiotagem, chantagens, prostituição de luxo e rivalidades ferozes — personificadas por atuações afiadas como a de Letícia Colin e Marcelo Adnet.

A Filosofia do Jogo Sujo
À medida que a trama avança nos episódios 3 (Filho de Peixe, Peixinho É) e 4 (Onde Há Fumaça, Há Fogo), a ilusão de ética no esporte é varrida para debaixo do tapete. São nesses capítulos que a série sintetiza sua tese moral em duas frases contundentes ditas por seus personagens:”Se você quer vencer, o jogo é sujo. No mundo da bola não se joga limpo. O mundo do futebol é implacável.” E a máxima que serve de aviso para a sobrevivência no meio: “Você precisa se ligar nos sinais. Se você desconfia, se sua intuição está dizendo que é, não brinca com ela não. No futebol tem que desconfiar de todo mundo pra não correr o risco de ir mais cedo para o chuveiro. Pra ninguém te passar pra trás, porque onde tem fumaça tem fogo.” Essa atmosfera de paranoia constante é o grande trunfo da série. A sensação de que a qualquer momento uma assinatura de contrato ou uma noitada pode ruir a carreira de um jovem talento entrega a tensão necessária para prender o espectador.

A narrativa nos bastidores convence, mas a bola rolando deixa a desejar
Se no extracampo Jogada de Risco é extremamente amarrada, ágil e bem dirigida, dentro das quatro linhas o cenário muda de figura. Existe um ponto frágil na produção que salta aos olhos: os efeitos visuais e a representação das partidas de futebol deixaram a desejar.Quando a câmera entra em campo para simular as jogadas e o clima dos estádios, a computação gráfica e a decupagem das cenas pecam no realismo, soando por vezes artificiais. Essa limitação estética fica ainda mais evidente quando temos como referência produções documentais de excelência — como a impecável restauração das imagens da Copa de 70, em que a textura da grama, o peso da bola, a luz natural e a organicidade dos lances nos entregam a verdadeira física e emoção do futebol. Essa discrepância visual no momento do “jogo” tira um pouco do impacto dramático que a série constrói tão bem nos escritórios, vestiários e camarotes.

Vale a Pena Assistir?
Mesmo com tropeços na pós-produção gráfica durante as cenas de jogo, Jogada de Risco se estabelece como um drama instigante e necessário no catálogo do streaming. Ela acerta em cheio ao tratar o futebol não como paixão nacional, mas como um negócio frio, ganancioso e perigoso. Para quem busca um thriller denso sobre bastidores de poder e ambição, a bola está cheia.

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