“Toy Story 5” usa tecnologia como vilã, mas fica devendo no encantamento

Foto: Disney/Pixar.
Foto: Disney/Pixar.

Novo capítulo da franquia acerta ao provocar sobre a perda precoce da infância para os algoritmos, mas entrega uma narrativa burocrática.

Quando a Pixar lançou Toy Story em 1995, o grande dilema da vida de um brinquedo era ser substituído por um modelo mais moderno, com asas de plástico e luzes piscantes. Trinta e um anos depois, a ameaça ao universo dos brinquedos mudou drasticamente de forma: não é mais outro brinquedo, mas uma tela retangular reluzente, alimentada por algoritmos e estimulação dopaminérgica contínua. Em Toy Story 5, o estúdio coloca Jessie, Buzz, Woody e sua turma diante do seu rival mais implacável: a hiperconexão infantil.

A premissa do longa toca no nervo exposto da sociedade contemporânea ao abordar como smartphones e tablets estão encurtando a infância. As crianças estão deixando de brincar — e, consequentemente, de ser crianças — cada vez mais cedo. Esse isolamento digital afeta diretamente o desenvolvimento da empatia, a sociabilidade no mundo real e a capacidade de criar mundos imaginários, processo essencial para a formação psicológica.

Um Espelho do Nosso Tempo: O Impacto Real dos Dispositivos
O filme não surge no vácuo; ele dialoga diretamente com um movimento global urgente. Países europeus como França e Holanda, além de estados nos EUA, vêm implementando legislações rigorosas para banir o uso de celulares em escolas primárias. No Brasil, dados recentes do Comitê Gestor da Internet (CGI.br) e pesquisas de comportamento familiar indicam uma virada cultural significativa: pela primeira vez em anos, cresceu a porcentagem de pais que estão adiando a entrega do primeiro smartphone ou tablet para os filhos, priorizando atividades físicas, brincadeiras analógicas e interação interpessoal. Toy Story 5 acerta ao capturar esse conflito geracional e transformá-lo no motor central de sua trama.

Uma Narrativa Comum que Não Encanta Como Antes
Apesar da relevância do seu tema central, como obra cinematográfica e entretenimento, Toy Story 5 fica devendo. Se analisado dentro do histórico da própria franquia — que atingiu ápices emocionais e narrativos irretocáveis nos episódios 3 e 4 —, este quinto capítulo soa apenas razoável.

A sensação é de uma produção burocrática, feita para cumprir tabela no cronograma de lançamentos da Disney/Pixar. As piadas são previsíveis, o ritmo vacila e o arco de superação dos personagens não carrega a mesma alma ou genialidade dos clássicos do passado. É um filme “OK”, mas que passa longe de encantar ou emocionar como os anteriores.

A Poesia do Final: De ‘E o Vento Levou’ ao Balanço Vazio
O ponto alto e mais refinado da fita surge em sua sequência final, em uma referência sutil que passa despercebida pelo público mirim. Por um breve instante, a composição visual da tela remete diretamente ao icônico enquadramento de E o Vento Levou (Gone with the Wind, 1939).

Na obra-prima de Victor Fleming, a antológica cena final traz a silhueta da imponente árvore com Scarlett O’Hara (papel que rendeu o Oscar de Melhor Atriz a Vivien Leigh) sob sua sombra, jurando recomeçar. Em Toy Story 5, a direção reproduz exatamente essa mesma atmosfera visual e estética: a árvore no centro do enquadramento e a luz do sol cortando o horizonte. Porém, no lugar de Scarlett, a câmera foca em um balanço vazio.

É uma rima visual poética e devastadora. O balanço inerte sob a árvore sintetiza sem uma única palavra a mensagem do filme: a infância analógica deixou a cena, e o espaço da brincadeira pura permanece ali, à espera de ser resgatado.

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